• 30nov

    factivel-post17-proverbios

    Pode desistir se quiser, mas lembre-se: desistir é um hábito difícil de largar. Jonathan Kent

    Eis acima uma jovem que está sendo espancada por um capanga do tráfico de drogas em Hollywood. Apesar da dor e do medo, ela sorri e mostra o dedo do meio para o rapaz, que diz: moça, você tem muita coragem. Trata-se de Um amor à queima roupa, um filme de 1993 com roteiro de Quentin Tarantino e direção de Tony Scott. A história é simples: um rapaz se apaixona por uma prostituta e vai até seu cafetão para pegar a carta de alforria . Após o encontro amigável ele leva embora uma mala com as roupas da amada, mas só depois percebe que roubou US$ 500 mil em cocaína pura. Minhas sinopses não são muito motivadoras, mas pode acreditar: esse é um dos melhores filmes que já assisti. Mostra demais a relação das pessoas com seus medos, desistências e superações.

    Medo é algo que todos temos: de baratas, de assaltos, de perder alguém, de falar em público, de dirigir à noite, de ratos, de gatos, de cobras, de ficar sozinho, de dizer eu te amo, de mandar alguém para aquele lugar. Tem gente que morre de medo de olhar para alguém conhecido e dizer oi, isso acontece demais. Dá a impressão de que a pessoa é esnobe, mas é só um medo social, uma timidez. Eu tenho medo de peixe… e não é medo de comer e engasgar com uma espinha, é do animal vivo mesmo. Nunca comi peixe, não gosto do cheiro e de vez em quando até sonho que estou morrendo afogado no mar, cercado de peixes. Numa época tive um aquário lindo, acho que foi uma forma de enfrentar os peixinhos. Algumas pessoas têm medo de cair, outras de levantar. Parece bobo, mas qualquer medo é grande para quem o vivencia.

    Primo Levi, um escritor judeu italiano que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, descreveu de uma maneira muito clara essa relação que é tão importante para todos nós:

    Os únicos presentes do mar são golpes duros,
    e às vezes a chance de sentir-se forte.
    Não compreendo muito o mar, mas sei que as coisas são assim por aqui.
    E também sei como é importante na vida não necessariamente ser forte,
    mas sentir-se forte.
    Confrontar-se ao menos uma vez.
    Achar-se ao menos uma vez na maior condição humana.
    Enfrentar a pedra surda e cega a sós,
    sem outra ajuda além das mãos e da cabeça.

    As mãos e a cabeça deviam ser suficientes para nós, mas dificilmente o são.

    Levi morreu em 11 de abril de 1987 ao cair no vão da escada do prédio onde vivia. Na época especulou-se um suicídio. Elie Wiesel, Prêmio Nobel da Paz em 1986 e sobrevivente do mesmo campo de concentração, disse: Primo Levi morreu em Auschwitz quarenta anos depois.

    Exceto pelos traumas realmente vividos, a maioria dos nossos medos surgem de regras sociais ou de algo que ouvimos na infância, ainda que não consigamos lembrar. Meus avós, e consequentemente minha mãe, sempre morreram de medo de viajar à noite. Talvez pela precariedade das estradas e da iluminação dos carros na época. Sei de todos os riscos de uma viagem noturna, mas também sei que a tecnologia hoje é outra, da menor quantidade de veículos, e isso me tranquiliza. A informação é grande aliada no combate aos medos.

    Outro aliado é o amor: Na cidade de Cosmorama, interior de São Paulo, um senhor de 66 anos enfrentou uma cobra sucuri de 5 metros e 35 quilos que estava matando o seu neto, um garoto de 8 anos. Munido de um facão, pedras e uma coragem pouco comum, matou a cobra após quase meia hora de luta. O amor pelo neto acabou com qualquer possibilidade de medo do avô.

    O medo, que é um sentimento muito primitivo, auxilia-nos na manutenção da integridade, a pensarmos duas vezes, a hesitar, a reagir. Sem ele, não duraríamos. E contanto que o usemos como instrumento adequado, definitavamente nos é muito útil.

    Como disse Osvaldo Montenegro em seu poema Metade: que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio.

    Que assim seja.

4 Responses

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  • Oblivion Says:

    Ruben, só passei para dizer que apreciamos sua visita no Vagalume Rosa e que gostamos muito do seu site. Parabéns! :D

  • Luciana Says:

    Ruben, obrigada por citar o poema de Primo Levi. Estou atrás de uma citação dele que tenho na cabeça, mas não sei exatamente se está correta, pois decorei a muito tempo atrás:
    “se alguns peixes inteligentes fizessem uma ciência sobre o seu meio, analizariam os outros peixes, os vegetais marinhos, mas tem uma coisa que nunca analisariam: a água.”
    Vc já ouviu isso?
    Obriga por fazer parte dessa imensa blogosfera, cheia de mensagens em garrafas. Eu passei aqui e recolhi a sua.

  • Luciana Says:

    ops, analisariam! rsrsrs

  • Rubens Mendonça Says:

    Olá, Luciana.
    Tudo bem?
    Perdoe-me pela demora para responder, fiquei tanto tempo sem postar no blog que acabei esquecendo a senha, acredita?
    Mas estou de volta.
    Sou ainda um “calouro” a respeito do Primo Levi, mas me interessei demais pela sua inteligência ao escrever, e pela vida que teve.
    Não conheço o texto que você citou e pesquisarei a respeito.
    Você também escreve? Qual é o foco?
    Um abraço!

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