• 19ago

    É preciso coragem para crescer e tornar-se o que você realmente é.

    Edward Estlin Cummings

    Para ser justo ao menos uma vez na vida: minha avó Irahy e meu avô Adalberto foram as melhores pessoas que conheci. Tratavam todo mundo com igualdade, respeito e educação, e sempre falavam a verdade. Os mendigos iam lá na casa deles para pedir comida e eram convidados a entrar.

    Além de bondosos, eram engraçados, esforçados, inteligentes, simples, e eram amparados por uma fé sem tamanho. Viviam entregando “folhetinhos” para as pessoas com o intuito de tirá-las do mundão. Estes papéis continham relatos sobre a experiência com ou sem Deus, e um destes era intitulado “O Salmo do Viciado“:

    A droga é o meu pastor, tudo me faltará.
    Ela me faz repousar nas sargetas,
    Leva-me para junto das águas turbulentas.
    Ela destrói a minha alma.
    Guia-me pelas veredas da injustiça pelo seu amor próprio.

    Sim, eu andarei pelo vale da pobreza,
    E temerei todos os males,
    Porque tu, droga, estás comigo.
    A tua agulha ou o teu cigarro procuram consolar-me.

    Saqueias a mesa de mantimentos na presença de minha família.
    Roubas de minha cabeça o juízo,
    E o meu cálice de tristezas transborda.
    Certamente o vício me seguirá todos os dias da minha vida,
    E habitarei na casa dos infelizes para todo o sempre.

    Um policial encontrou estas palavras numa cabine telefônica, e pouco depois encontrou o autor morto por overdose de heroína.

    Cresci num lugar onde o acesso às drogas sempre foi fácil, em que jovens perdem muitos anos de suas vidas neste caminho. Alguns não conseguem abandonar o vício nunca, enquanto outros ainda pagam com a vida.

    Filho de professores, culturalmente de classe média e financeiramente de classe baixa, cresci distante da minha mãe que trabalhava o dia todo para nos oferecer o melhor possível. Na mesma situação estava a maioria da molecada com quem convivi, e neste contexto é muito fácil cair na tentação, pois os vícios comuns ajudam na socialização. Os usuários formam uma espécie de família, onde há proteção, cumplicidade e atividades diversas entre a turma.

    A impressão que dá é que a droga surge para preencher alguns vazios, mas creio que no fundo ela cava ainda mais pois estamos falando de um preenchimento errôneo. É uma viagem curta para um mundo imaginário onde a felicidade parece real. Mas quem é que entende disso?

    Cada pessoa se apega a algo que lhe traz conforto e paz, principalmente quando não se tem muita noção do que é a vida, o que é certo, o que é errado. Tenta-se chegar à conclusão de que não existem erros, apenas lições, mas nem sempre é possível.

    Finalizo este post citando uma série de tv que me acompanhou durante a infância pela sutileza e sensibilidade ao mostrar o olhar de uma criança perante o inevitável crescimento. Kevin Arnold, protagonista de Anos Incríveis, descreve seu aprendizado:

    Quem está certo e quem está errado?
    Agora eu sou adulto e continuo sem saber.
    Mas em algum momento, tarde da noite, quase ao adormecer,
    As idéias e desentendimentos se dissipam.
    E restam apenas as pessoas.
    E as pessoas naquele tempo não eram diferentes do que sempre foram e sempre serão.
    As moças se apaixonam.
    Os homens e as mulheres sofrem sozinhos pelas escolhas que fizeram.
    E as crianças, confusas, cheias de medo, de amor e de coragem,
    Crescem silenciosamente enquanto dormem.

    É claro que algumas não crescem nunca …

8 Responses

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  • André Says:

    Seu blog é um achado.
    O encontrei por acaso e não consegui sair da página sem ler todos os posts.
    Parabéns por tratar de forma tão poética esses temas tão humanos mas tantas vezes esquecidos em nosso louco cotidiano.
    Aguardo pela próxima postagem!
    Abs

  • Camila Says:

    Putz, Anos Incríveis marcou a minha adolescência!
    Gravava todos os epsódios e ficava hooooras revendo.
    Fantástica a citação!
    Bjss

  • Rubens Mendonça Says:

    Olá, André. Tudo bem?
    Primeiro, obrigado pelas palavras.
    O blog está no início e ainda tenho dificuldade para transcrever as idéias e sentimentos em palavras, por isso tenho feito uma média de 2 posts ao mês, mas aos poucos me tornarei mais ágil.
    Cada artigo tem o nome de um livro da Bíblia, então este blog já tem um tamanho certo para acabar. Porém vou inserir também mais poemas, mitos, dicas de filmes e músicas, entre outros.
    Espero que goste do próximo texto.
    Grande abraço!

  • Rubens Mendonça Says:

    Oi Camila, como vai você?
    Então você também foi marcada por Anos Incríveis? Fui como você, gravava e revia muitas vezes! risos
    Esta série deveria ser transmitida em horário nobre pois mostra uma pureza e inteligência que é tão rara nos dias de hoje.
    Fiquei emocianado com muitos episódios, e aos poucos farei outras citações do Kevin & Cia.
    Beijos e muito obrigado pela visita!

  • Andréia Says:

    Por indicação de um amigo entrei no seu blog e realmente, o conteúdo é muito bom!
    Sou uma cinéfila e a lista de filmes é fantástica.Você já assistiu todos?
    Estou louca pra assistir Across the Universe, dizem que é ótimo, mas não encontro em nenhum lugar. Você sabe onde eu possa encontrar?
    Beijos

  • André Says:

    Olá meu amigo!
    Entrei hje na expectativa de encontrar mais um devaneio..
    Aguardo ansiosamente,
    Abs

  • Heloisa Rocha Says:

    Bom dia “querido”! (se é que eu posso)

    Mesmo se não te conhecesse, acho que conseguiria compreender tudo o que escreveu.

    VOce pediu para eu opinar, e eu achei sensacional.

    Quando você vai citar Durval discos?
    Será que um dia vai citar Lost?

    Acho que nao tem muito o que se citar disso não é?

    Aguardo ansiosamente os próximos… posts….

    Beijos

  • Adalberto Oliveira Says:

    Rubinho,

    Procurando por referencias ao meu próprio nome vim bater no teu blog, graças aos nomes de nossos queridos pai/avós Adalberto e Irahy. Gostei da tua sinceridade no trato da questão das drogas e da coragem em expor. Vai fundo no seu blog. Que o espírito desses nossos velhos maravilhosos continuem nos inspirando a desbravar nosso “dark side…”

    Abração,

    Beto Rizzo de Oliveira

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