• 16jul

    factivel-post14-jo-adeus

    Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, valeu a pena ter nascido. Fernando Pessoa

    Meu pai biológico foi embora de casa quando eu ainda era nenê, porém algumas pessoas interpretaram esse papel. Minha mãe começou a namorar o Manoel lá no início dos anos 80. Não seria equivocado se ele fosse chamado de Pandóra pois era dotado de muitos dons. É um pouco da história dele que vou contar agora.

    Com uma voz  grave e afinada, cantava e tocava violão bem demais. Quiseram levá-lo para cantar no rádio e em programas de calouros, mas nunca chegou a ir. Em 2008 fomos para Alfenas encontrar seus amigos e o povo cantou com olhos molhados enquanto ele arranhava algumas músicas das antigas.

    Desenhava e pintava como profissional: seus quadros monstram um artista concentrado e perfeccionista. Com muito bom humor, fazia caricaturas de todo mundo – os amigos se divertiam. Conta-se que, ainda menino, uma vez desenhou uma caveira e depois saiu correndo de medo. E virou piadista “depois de velho”, sempre contava  uma do português, do papagaio, do marido traído, do soldado.

    Nasceu em São Paulo mas passou a infância e a adolescência em Bebedouro, cidade que era chama de Capital da Laranja e que lhe dava muito orgulho. Lá fez o Tiro de Guerra em 1958, onde conheceu muita gente e ficou conhecido como Lampião de Gás por causa daquela música da Inezita Barroso, a qual vivia tocando para a tropa. O refrão é verdadeiro: Lampião de gás, lampião de gás, quanta saudade você me traz. Em Novembro do ano passado houve uma festa para comemorar os 50 anos da turma do TG – foi emocionante.

    Participou do Curso de Artes Escola Estadual Caetano de Campos, em seguida graduou-se na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e tornou-se professor de artes. Lecionou no Ceneart, em Osasco, onde formou uma família de amigos verdadeiros. Os professores que usavam a sala de aula depois dele optavam por deixar a lousa intacta pois dava dó de apagar aqueles desenhos, aquela bela letra, aquela obra de arte. Um deles citou o poema da Lou de Olivier:

    Amizade quando é sincera,
    Doa mais do que se espera
    Faz do amigo, porto seguro
    Ilumina todo o escuro
    Se o amigo vai embora
    O Coração chora
    Se fica junto
    Isso transforma o mundo
    E, se surge a incerteza
    Tem que se por cartas na mesa
    Para saber o que é certo
    O que se deve ter por perto.

    Foi lá também que conheceu a minha mãe.

    Para evitar sujar a roupa de giz, ele costumava usar um jaleco branco. Numa manhã, quando estava dirigindo a caminho da sala de aula, foi parado por um policial que disse:

    - Siga aquele carro!

    Começou a perseguir um bandido que fugia em alta velocidade, quando o policial pediu que ele entrasse numa rua contramão. Naquele momento ele lembrou que estava usando o jaleco, então disse  ao policial:

    - Não posso continuar, tenho que operar um paciente no hospital em 20 minutos!

    Então o policial “percebe” que ele é médico, pede desculpas ao doutor e desce do carro. Que presença de espírito hein!

    Tinha o melhor vocabulário de todos, talvez por jogar palavras cruzadas por horas a fio. De vez em quando soltava uma palavra que ninguém entendia, no estilo das conversas entre a Dona Bela e o Professor Raimundo Nonato.

    Filho único, era muito apegado aos pais. Nunca deixou de tratá-los como papai e mamãe. Sentiu demais quando os perdeu.

    Parecia ter saído do túnel do tempo, seu guarda roupas era de outra época.

    Era uma figura.

    Também tinha algo que não se vê hoje com muita facilidade: decência. Foi uma pessoa íntegra ao extremo, nunca soube de nada de errado que ele tivesse feito. Nada mesmo. Por ser pacífico e paciente ao extremo, não tinha inimigos.

    E valorizava a família mais do que qualquer coisa – uma vez me disse: vocês são tudo o que eu tenho.

    Manoel Carlos Berti Delgado

    * 02/12/1939

    + 16/07/2009



6 Responses

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  • Carol Says:

    Lindo, modelete. Triste quando pessoas que amamos, do bem, vão embora e nos deixam aqui. Mas com certeza foram pra um lugar lindo e estão cuidando de nós. Bjs.

  • Valéria Says:

    Lembro-me do dia em que você e seu pai me deram carona para o Guarujá… Foram de uma gentileza ímpar, desviando horrores do caminho (já que iam para a Praia Grande e só me disseram isso na Imigrantes)… fiquei morrendo de vergonha…, porém tive a oportunidade, apesar do cansaço e do stress que me encontrava, de aprender um pouco mais com vocês.
    Não fique tão triste, acredite que um dia, não sei onde, não sei quando… Todos nos reencontraremos… Isto é fato!
    Beijos e fica com Deus…

  • Lilian Says:

    Uma bela biografia e uma linda homenagem.Convivi pouco com o Manuel, mas o suficiente para saber que ele realmente foi uma grande pessoa. E é exatamente assim que as pessoas queridas devem ser lembradas, com uma saudade boa e a sensação de que tivemos a benção de a conhecermos.
    Bjos

  • Jefhcardoso Says:

    Legal Rubens! Bela homenagem num duro momento. Quando o mundo treme é que provamos nossas bases. Amigo, belo blog, muito bem disposto os posts, assuntos interessantes e estrutura original, conforme eu lhe disse pessoalmente, muito bem sacado o lance dos livros bíblicos marcarem as fases. Costumo deixar meu blog anotado quando faço uma visita (http://jefhcardoso.blogspot.com), aí está. Abraço!

  • black hattitude Says:

    hello,

    Thank you for the great quality of your blog, each time i come here, i’m amazed.

    black hattitude.

  • Dani Caetano Says:

    Incrível… amei… a forma, palavra o amor….
    Parabéns….
    bjs

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