• 14jul

    factivel-post05-deuteronomio-hipocrisia

    “Há quem passe pela floresta e só veja lenha para a fogueira”.

    Tolstoi

    O russo Lev Nikoláievich Tolstói é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos, e possivelmente o maior nome da narrativa realista. Suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz, uma lição de otimismo que descreve a invasão de Napoleão na Rússia de 1812, e Anna Karenina, onde retrata e critica a sociedade hipócrita da época czarista. E é disso que falaremos: hipocrisia.

    O conto Bola de Sebo (Boule De Suif), do autor francês Guy de Maupassant, inspirou Chico Buarque a compor Geni e o Zepelin, uma canção que retrata claramente como os interesses momentâneos afetam as atitudes das pessoas. Na versão brasileira, um invasor chega num Zepelin e promete destruir a cidade, a menos que a Geni, um travesti que sempre foi criticado e apedrejado, passe a noite em sua companhia. A população, temendo a aniquilação, sai em passeata e sinceramente pede:

    Vai com ele, vai Geni
    Você pode nos salvar
    Você vai nos redimir
    Você dá pra qualquer um
    Bendita Geni

    Tocada, ela cede aos apelos e se entrega à voracidade carnal do tal invasor, até saciá-lo. Este nobre senhor parte logo em seguida, livrando a cidade da destruição. E a população se lembra do modo que realmente enxergam a Geni, e voltam a cantar:

    Joga pedra na Geni
    Joga bosta na Geni
    Ela é feita pra apanhar
    Ela é boa de cuspir
    Ela dá pra qualquer um
    Maldita Geni

    Segundo o dicionário: Manifestação de fingidas virtudes, sentimentos bons, devoção religiosa, compaixão etc.; falsidade. Há muito disso na nossa política, negócios, relacionamentos, mas vou falar sobre quando fingimos para nós mesmos. É muito comum conhecer alguém que passou por uma situação muito difícil e que se sentiu “obrigada” a fugir para um mundo de fantasia. Mas é possível assassinar a verdade, fugir de nós mesmos, visto que estamos sempre juntos? Uma vez li: quanto mais tentamos fugir dos nos problemas, mais eles nos perseguem. Basta tentar correr da própria sombra para descobrir que ao meio-dia ela te alcançará, e é assim em muitos outros casos. Tudo bem que nem sempre é fácil enfrentar, o momento pode não ser o ideal, mas o adiamento fortalece o outro lado. Se você não toma uma decisão, já tomou a decisão de não fazer nada. A vida é um sopro e a morte também, o primeiro nos traz e o segundo nos leva, é tudo muito rápido e perdemos tempo com algo que no fundo é ridículo. Chega de se lamentar, de mascarar, de sofrer e, principalmente, de alimentar a dor. Pára com isso, antes que a nova gramática seja aplicada.

    O compositor, cantor, violonista e percussionista Luiz Gayotto escreveu a respeito da Hipocrisia:

    Pensa que eu não sei que você disse o que não quis
    eu respondi o que pensava que você queria ouvir

    Pensa que eu não vi o que todo mundo viu
    Faz de conta que só eu não percebi

    Que era melhor fazer de conta
    Que o que eu vi não existiu

    Isso é mera hipocrisia

    É falsa devoção
    É triste alegria
    Fingimento de emoção

    Isso é mera hipocrisia

    Afetação de uma virtude
    É desvio de sentimento
    Negação de juventude
    Que impregna com o tempo

    O que eu senti
    Não era falso ou ilusão

    Mas às vezes é melhor subverter uma emoção
    Que põe tudo a perder e põe tudo a perder
    Mesmo que se perca a noção do que é verdade, o que é mentira

    Mesmo que nebuloso
    quem é o fiel, quem o traira

    Olhou mas fez que não
    Quis, negaceou, Cedeu,

    os olhos reprovaram O que queria
    e não provou

    Deu licença e educação (em nome do que acha educado)

    Mas a verdade, que importa, ficou trancada do outro lado.

    O filme Ônibus 174 conta a história de Sandro do Nascimento, um menino carioca de 8 anos que viu sua mãe, grávida, ser morta a facadas. Uma semana depois ele foge para as ruas , onde passa a viver. Sobreviveu à “Chacina da Candelária“, quando 8 crianças foram assassinadas por policiais. No dia 12 de Junho de 2000, aos 22 anos, tentou assaltar um ônibus da linha 174 ocupado por 11 pessoas. O evento se prolongou e a polícia cercou o veículo. Após conversas que duraram 5 horas, Sandro saiu do ônibus com o revólver apontado para uma das reféns. Um dos policiais, numa manobra infeliz, disparou em sua direção com uma submetrabalhora, mas o tiro mortal acertou a refém na cabeça. Sandro foi colocado num camburão, onde morreu por asfixia a caminho da delegacia. De alguma forma, um ciclo foi completado. Este é um daqueles filmes que nos deixam na dúvida sobre quem é vítima, e eis aí algo que sempre ouvi: o benefício da dúvida. Benéfico é o que faz pensar, raciocionar, pesar e tomar partido.

    Tinha John Lennon razão quando citou: A ignorância é uma espécie de benção. Quem não pensa, não sofre. Sem pensar, por outro lado, vive-se num mundo ireal, restrito, e por que não, hipócrita. Um mundo de alegrias alicerçado em massinha para modelar.

    Em seu poema Acontecimento, Vinícus de Moraes disse:

    Haverá na face de todos um profundo assombro
    Na face de alguns risos sutis cheios de reserva
    Muitos se reunirão em lugares desertos
    E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres

    Como se o milagre tivesse realmente se realizado
    Muitos sentirão alegria
    Porque deles é o primeiro milagre
    E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
    * leia a nota no final do post

    Muitos não compreenderão
    Porque suas inteligências vão somente até os processos
    E já existem nos processos tantas dificuldades…

    Alguns verão e julgarão com a alma
    Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
    Ouvirão apenas dizer…
    Será belo e será ridículo

    Haverá quem mude como os ventos
    E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos
    No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
    Escutando verdades e mentiras

    Mas não dizendo nada
    Só a alegria de alguns compreenderem bastará
    Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
    Que as águas mais turvas contêm ás vezes as pérolas mais belas.

    Todo mundo compreende isso perfeitamente: ninguém sabe de nada, ninguém duvida de tal coisa e todos estão de acordo. E a vida segue.

    * óbolo do fariseu: neste caso, refere-se a dar esmola a alguém que te despreza, que é hipócrita com você, que duvida da tua fé.

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