
A inocência é a saúde da alma; a do corpo é a alegria.
Ramón Campoamor
Meninas grávidas aos 14 anos, moleques com metralhadoras em punho, padres cumprem pena por assédio sexual, pai joga a filha pela janela do apartamento, namorado mata a parceira grávida, idosa é espancada pela enfermeira, índios enchendo a cara no bar … chega. Meu Deus, onde é que foi parar a inocência?
Uma boa definição é a do médico alemão Rolf-Erhard Weyel:
“Ciência”, “noção” e “não” são os radicais etimológicos da palavra “inocência”… É como se ela fosse um estado de genuinidade original, não ciente ainda de si, situada antes do surgimento da intelectualidade e da divisão em bem e mal, físico e sutil, Deus e homem, homem e mulher… A partir da busca consciente das sensações de prazer, tirando-as do seu contexto natural, aparecem todos os infortúnios ligados a elas, como a ansiedade, a frustração, a violência, a perda, a comparação, a competição e a conquista”.
Não sou muito partidário destas teorias que dizem “o ser humano nasce bom e é corrompido pelo meio” pois cresci ao lado de muitas crianças, tanto na escola quanto na vizinhança, e percebia que algumas eram ruins “por natureza”. Gostavam de brigar, judiavam de gatos, não respeitavam ninguém. Ou então pelo exemplo de irmãos que tiveram os mesmos tratamentos, um deles se desenvolve, estuda, trabalha, e outro se torna bandido. É uma escolha? Já nasceu assim? É criado de maneira quase que imperceptivelmente diferente?
Sempre que penso em inocência vem-me à cabeça a imagem de pessoas idosas, de crianças ou de animais. Porém, hoje até estas imagens se tornam passíveis de desconfiança, talvez pela cultura do medo vendida pela mídia. O documentário Tiros em Columbine, do premiado e polêmico diretor Michael Moore, conta a história dos 2 estudantes que mataram 12 colegas e 1 professor numa escola americana em 1999. As pessoas buscam o que pode ter motivado o massacre e a maioria tem uma aposta certa: as músicas do roqueiro Marilyn Manson. Ele, dotado de uma inteligência que me impressionou, respondeu:
Os dois assuntos mais citados em toda aquela tragédia foram: violência nos entretenimentos e controle de armas. Eram assuntos perfeitos para se debater com as eleições chegando. E, com isso, todos se esqueceram de Monica Lewinsky. E nos esquecemos dos bombardeios que o presidente ordenou.
Eu sou um cara mau porque canto músicas de rock ´n roll. Quem é mais influente: eu ou o presidente? Gostaria de achar que sou eu, mas acho que é o presidente. No dia da tragédia de Columbine os EUA lançaram mais bombas em Kosovo do que durante toda a guerra, e acho irônico a mídia não ter citado isso. Ninguém chegou a dizer: “Bem, talvez o presidente tenha influenciado esta violência”.
A verdade é que a mídia não quer mostrar o fato assim, ela quer transformá-lo em medo. Pois quando você estiver assistindo ao noticiário, estará sentindo a adrenalina: enchentes, AIDS, assassinatos. Corte para o comercial: compre um Honda, compre Colgate, se tiver mau hálito ninguém falará com você. Se tiver espinhas, as meninas não transarão com você. É apenas uma campanha de medo e consumo. Acho que é nisso que se baseia a nossa economia, mantenha a adrenalina e as pessoas consumirão. É assim que as coisas funcionam.
Após ouvir suas palavras, me senti um pouco inocente por não conhecer o que ele realmente é, por julgá-lo com base na sua aparência e pela pegada de suas canções. Mas isso é inocência ou a completa falta dela? Julgar pelo que se vê, pelo que se acha. Os “achismos” fazem parte da nossa vida, nos iludem e maltratam a verdade. Mesmo assim, temos grandes dificuldades para nos livrar deles. Deve ser um pouco confortável transformar em real algo que é julgado com base em nossa história, nossos olhos e nossos preconceitos.
No poema O Mundo não se Fez para Pensarmos Nele, Alberto Caeiro disse:
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar …
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar.
Não pensar, é possível isso? O fato é que a inocência é afetada pelo que se vê, se ouve, pelo tempo, pelos pais, pelos amigos, pelos inimigos, pela TV, pelos jornais, pelos livros. É afetada pela escassez, e também pela fartura. Se você já não nasceu sem ela, pode virar a ampulheta e se preparar para perdê-la pois isso é inevitável e de certa maneira necessário. Digo isso com muito pesar pois acredito que perder a inocência é perder a capacidade de ser feliz com pouco, seja lá como cada um interprete isso.


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